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MATEMÁTICA É OBRIGATÓRIA
Gerenciar essas informações para fazer escolhas é o papel do administrador. Ele estudará cada aspecto que envolve um negócio. A formação básica começa pelas humanidades, com aulas de filosofia, economia, psicologia, comunicação e sociologia. "Elas dão formação cultural e ensinam a perceber o contexto em que as empresas e seus problemas estão inseridos", diz Bernadete. Essas matérias dominam os dois primeiros anos do curso, com disciplinas que iniciam o aluno no universo empresarial, como marketing, finanças, logística, gestão de pessoas e muita, muita matemática.
É isso mesmo. Se sua intenção era escapar dos números, esqueça. O administrador precisa resolver algoritmos e derivadas, fazer estatísticas e análises de balanço. "Não tem como fugir. As disciplinas de exatas são pré-requisito para muitas outras. Até nas áreas tidas como criativas, como o marketing, é necessário lidar com números", explica Bernadete.
Na escola de Administração da Fundação Getulio Vargas, a mais antiga do país, o currículo do curso foi reforçado com mais matemática por uma questão de sobrevivência: percebeu-se que os engenheiros estavam tomando vagas dos administradores, por entendem mais de números, habilidade essencial para um gestor. Por isso, a FGV reforçou matemática e estatística e passou a estimular o raciocínio lógico.
Se sobreviver às equações, você estará pronto para mergulhar na prática da profissão. No terceiro e no quarto ano, marketing, finanças, operações, logística e gestão de pessoas continuam no cardápio, mas a complexidade aumenta, assim como a carga horária, e o aluno deve fazer estágio. A experiência é obrigatória e necessária para o estudante pôr em prática o que viu em sala de aula. É também o primeiro passo para se especializar em um segmento da administração.
OPÇÕES DEMAIS
Há cerca de dez anos, quem abrisse o Guia do Estudante encontraria a carreira administração, e ponto. Hoje, são dúzias de habilitações, que já especializam o aluno durante a graduação. Embora dividir o conhecimento em compartimentos específicos seja uma tendência do século XXI, nem todos concordam que o encaminhamento precoce seja a melhor maneira de se preparar para a corrida do primeiro emprego. "As organizações estão cada vez maiores e mais complexas e exigem profissionais especializados para lidar com cada pedacinho do conjunto", diz o consultor Silton Romboli. "No entanto, perde-se muito ao trocar a formação generalista por uma específica. O bom curso de Administração passa por todos os campos. A escolha da área final deve ficar para a pós-graduação."
A polêmica segue. "Com 20 e poucos anos, não se tem maturidade nem vivência para escolher uma especialização. Adiantar esse processo cria um profissional pobre", defende a professora Bernadete. "Além disso, as empresas procuram flexibilidade, que sempre foi característica da administração", acrescenta ela. O professor Antônio Freitas engrossa o coro. "A vantagem da formação generalista é ter uma visão sistêmica das organizações, algo que nenhum outro curso dá", diz ele, que aconselha: "Torne-se um bacharel, experimente o mercado e, então, decida sua especialidade". A variedade dificulta a escolha, mas o candidato a administrador não pode reclamar de carência de opções. É possível atuar em praticamente todas as áreas do mercado de trabalho.
FAÇA ESTÁGIO E SAIA NA FRENTE
O momento é excelente por causa da profissionalização da economia. O crescimento do agronegócio leva administradores para o campo. As empresas familiares já não mais sobrevivem sem um especialista. E até instituições como escolas, clubes esportivos, editoras e hospitais, que antes eram dirigidas pelos "velhos" de casa, agora preferem ter um administrador na diretoria. Nas grandes companhias, a necessidade de competir no mercado externo traz oportunidades para quem sabe negociar. E muitos órgãos públicos, que costumavam ser geridos por políticos e concursados, colocam em suas cadeiras mais altas profissionais de administração graduados.
"O mercado de trabalho sinaliza que há muitas oportunidades. Nunca a gestão profissional foi tão valorizada", diz Antônio Freitas. Quer aproveitar a chance para se dar bem? Comece escolhendo o estágio. "Ele faz o intercâmbio entre a faculdade e a vida real. Para a maioria, é a melhor porta para o mercado", diz Osvino de Souza Filho, da Fundação Dom Cabral.
Dê preferência aos programas estruturados, que ofereçam perspectivas de crescimento e a chance de acompanhar o dia-a-dia da empresa. Ficar na área de que mais gosta pode ser interessante, mas experimentar várias pode proporcionar muitas descobertas. "Mesmo quando o serviço era braçal ou sem graça, aprendi aspectos importantes da profissão, como perceber o clima e a cultura da organização", comenta a ex-ministra Cláudia Costin,
especialista em administração pública.
Depois do estágio, nove entre dez recém-formados sonham com programas de trainee. Misto de trabalho e treinamento, eles são promovidos por grandes companhias, interessadas em recrutar e formar novos talentos. Concorridíssimos, oferecem bons salários e oportunidades de aprender, criar relacionamentos e acelerar a carreira.
Quando se formou, Roberta Narikawa foi efetivada no banco onde fazia estágio. Largou tudo ao ser aprovada para o programa de treinamento da Maersk Sealand, a maior companhia de navegação do mundo. Durante um ano, Roberta passou por três áreas da empresa. A cada três meses, deixava o escritório em São Paulo para passar duas semanas na sede da Maersk, em Copenhague, na Dinamarca. Lá, teve aulas de direito marítimo e finanças e aprendeu como funciona o negócio da navegação. A moça que nunca tinha visto um contêiner de perto subiu em um navio para fazer a rota entre a Suécia e a Espanha, conhecendo cada porto. Com o fim do programa, pôde escolher uma vaga em um dos 325 escritórios da Maersk no mundo e trabalhar no exterior. "No trainee, pude reunir aprendizado, trabalho e vivência internacional", diz ela. "Antes, nunca havia pensado nesse ramo. Por sorte, a faculdade de Administração me preparou para trabalhar em qualquer lugar."
CHANCE DE SER EMPREENDEDOR
Outro caminho é seguir o próprio faro e, em vez de gerenciar a empresa alheia, abrir o próprio negócio. O senso comum diz que você deve fazer um estágio no terceiro ano, outro no quarto, conseguir uma vaga de trainee quando se formar e fazer carreira dentro de uma grande empresa. Mas tambémé possível fazer diferente e chegar mais longe. César Carvalho, por exemplo, trabalhou na empresa júnior da Universidade de São Paulo, onde estudou. Lá, aprendeu a aplicar a teoria na vida real e lidou com problemas que só veria nas fase final da graduação. "Trabalhei em projetos importantes, entrei dentro de grandes companhias e estreitei meu relacionamento com os professores. Ganhei perspectivas de carreira que não imaginava." Quando deixou a empresa, César foi convidado a se associar à consultoria de um professor, para trabalhar em projetos menores. "O importante é ter um objetivo, saber aonde se quer chegar e nunca subestimar seu potencial", ensina.
Se você não tem espírito empreendedor, trate de cultivar. Ele é necessário até para conquistar um emprego.As empresas admiramadministradores que trabalham pensando no negócio de ponta a ponta e estão sempre preocupados em fazer a empresa crescer e ser melhor. Tratar a organização como se fosse um projeto pessoal é parte do "endo-empreendedorismo", qualidade procurada pelos recrutadores. Envolve comprometimento, visão do negócio e criatividade para inovar. Você é assim? Prepare-se, essa é a primeira das muitas habilidades exigidas pelo mercado.
Relacionar-se com todo tipo de pessoa, buscar parcerias, saber ouvir e conseguir influenciar são algumas das competências mais citadas por quem contrata. Dominar o negócio também é característica do administrador de sucesso. Quanto mais se conhece a área, mais fácil é encontrar oportunidades para criar. Com essa habilidade, vem outra: enxergar o contexto. Não se pode fazer o serviço apenas por fazer. O trabalho, por menor que seja, tem um papel social e afeta a vida do outro. Os grandes profissionais são aqueles preocupados em contribuir para uma sociedade melhor. As companhias querem pessoas com valores e ética, interessadas na pauta do momento: a responsabilidade social.
Reparou que nenhuma dessas competências se aprende na escola? Não é à toa que os empregadores dizem que, no início da carreira, perfil e potencial contam mais do que a formação. "Organizações reproduzem os valores, a cultura e os papéis da comunidade onde nascem", explica a professora Bernadete. "Transitar por esse ambiente exige sensibilidade para as questões sociais e bagagem cultural", completa.
FAÇA VOCÊ MESMO: INSTRUA-SE
"Aprender a pesquisar e ler muito amplia a capacidade de enxergar o mundo. Isso influencia nas suas habilidades como administrador", aconselha Osvino Filho, da Dom Cabral. Estar antenado com o que ocorre lá fora é parte do processo. "A tecnologia possibilita o acesso à informação. Quanto mais dados, mais precisa é a decisão. Um administrador é medido pela qualidade das escolhas", diz Silton Romboli.
A graduação ajuda a construir a percepção do mundo e, claro, ensina as técnicas para realizar o trabalho. Com a pressão para ter um currículo recheado aos 20 e poucos anos, pode parecer impossível adquirir todos os conhecimentos exigidos. "Para sair preparado da faculdade, escolha uma instituição que ensine como fazer, na prática", aconselha Silton Romboli. Bons professores, oportunidade para trabalhar dentro da faculdade, aulas em outros departamentos e atividades extracurriculares, mesmo que voluntárias, levam o aluno a exercitar as competências do futuro. Para o professor Antônio Freitas, antes de sair correndo, é bom saber que você pode (e deve) continuar aprendendo no decorrer da carreira. "Ninguém sabe tudo aos 20 anos. O importante na faculdade é preparar-se para a vida."