A velocidade com que o mercado de trabalho se transforma exige muita adaptação, tanto por parte dos empregadores quanto dos profissionais e das instituições que os preparam. A cada dia, surgem demandas inéditas por especialistas em áreas novas ou que ganharam maior importância recentemente.
Há alguns anos, por exemplo, o profissional tarimbado para estar ao lado de um criador de cavalo era o veterinário. Hoje, a sofisticação em relação a essa atividade já deu origem a um novo profissional, o técnico em ciências eqüinas. Da mesma forma, um designer gráfico pode ser uma opção bem melhor que um arquiteto na hora de se pensar em produtos editoriais, e um gestor ambiental pode servir mais adequadamente que um biólogo aos propósitos de uma empresa que queira funcionar de acordo com as leis ambientais. São, enfim, necessidades que precisam ser supridas por profissionais com foco bem específico.
O fato de a sociedade e, principalmente, os empregadores, terem mais consciência do que significa um curso tecnólogo, tem aberto portas aos profissionais com esta formação. Eles ainda têm muitas barreiras e preconceitos a superar, mas, de forma geral, já são bem mais aceitos pelas grandes e médias empresas, que tinham restrições em relação à formação desses profissionais. “Ainda existe dificuldade em entender qual o papel do tecnólogo dentro da empresa, mas os estudantes que têm saído de nossos cursos não demonstraram grandes dificuldades para obter emprego” afirma Janete Otte, vice-diretora geral do Centro Federal de Educação Tecnológica do Rio Grande do Sul (Cefet-RS).
Maior aceitação
Atualmente, os empregadores reconhecem que precisam dos tecnólogos, especialmente em nichos recentes, ainda pouco explorados ou carentes de conhecimento. “Se os diplomas vierem de escolas de renome, o tecnólogo é tão reconhecido quanto o bacharel, especialmente nas vagas que exigem grande conhecimento técnico”, assegura Denise Kamel, consultora em recrutamento e seleção, da Selectus Consultoria, de São Paulo (SP). “Mas ele deve sempre incrementar a formação com novos cursos e especializações, porque essa atualização é esperada de um tecnólogo, que deve dar respostas rápidas e práticas aos problemas.”
Rubens Martins, da Sesu, concorda com a consultora. Ele acredita que os profissionais com formação específica podem ser mais interessantes para algumas áreas do que aqueles com a formação generalista da graduação tradicional. “Não se trata de afirmar que uma formação é melhor ou pior que a outra: são diferentes, com objetivos diversos e respondem a questões específicas e complementares das demandas da sociedade para determinadas atividades”, explica.
Segundo Eduardo Ehlers, diretor de graduação do Centro Universitário Senac, em São Paulo, os cursos tecnólogos também mudaram bastante o seu perfilo desde que começaram a ser oferecidos. “Eles eram mini-bacharelados, que resumiam os conteúdos da graduação tradicional em dois anos. Hoje, a formação de um bacharel e de um tecnólogo são diferentes em todos os sentidos. E, dependendo da demanda, o tecnólogo pode ser mais interessante que um bacharel – tudo depende do perfil do profissional que se necessita”, afirma.
Indicadores de qualidade
Para garantir a qualidade desses cursos e incentivar as matrículas, o Ministério da Educação (MEC) entrou em campo e tomou medidas que repercutiram muito bem no mercado. A primeira delas foi a criação do Catálogo de Cursos Superiores de Tecnologia (leia mais sobre o assunto), que dá as diretrizes para a criação de novos cursos e orienta estudantes e instituições de ensino a respeito desse tipo de graduação. A segunda foi a decisão de incluir os cursos tecnólogos na avaliação do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes, o Enade. A primeira avaliação deverá ocorrer em novembro de 2007. Essas medidas aumentam a credibilidade nesses cursos e definem, aos olhos dos empregadores, os diferenciais positivos de um tecnólogo.
Novas demandas
Conhecendo melhor esse tipo de formação, as empresas puderam constatar que as instituições que a oferecem estão em alinhamento total com o mercado. “Chegamos a fechar cursos de áreas saturadas. Se não há demanda pelo profissional, para que formá-lo?”, questiona Carlos Alberto Moraes, coordenador e idealizador do curso de Gerontologia e Desenvolvimento Social da Universidade Santa Cecília (Unisanta), em Santos, no litoral paulista. “Por outro lado, abrimos novas modalidades. O curso de erontologia, por exemplo, surgiu devido à exigência do Estatuto do Idoso de que haja profissionais com essa especialidade para trabalhar no Sistema Único de Saúde.”
A direção da Faculdade de Tecnologia de Jahu (Fatec-Jahu), no interior de São Paulo, também detectou a necessidade de estar atenta ao mercado. Em 1990, a instituição criou o curso superior de tecnologia em sistema de navegação, ainda hoje, o único do mundo. De acordo com Rosa Maria Padroni, coodenadora do Centro de Estágios da instituição, foi um tiro certeiro. Tanto que, na época de estágios, a procura pelos estudantes é sempre maior que a oferta. “Até 2001 oferecíamos em média 38 vagas de estágio ao tecnólogo em navegação fluvial, e no ano passado foram 112”, orgulha-se. “Outra prova da procura é que os 17 formandos do ano passado estão todos empregados”, afirma.
Áreas em alta
Os cursos de tecnologia são oferecidos em uma imensa quantidade de áreas, que vão da construção civil à gastronomia. Mas, existem setores mais promissoras que outros em termos de empregabilidade. É o caso de áreas de alta demanda como construção civil, hotelaria, gastronomia transporte, telecomunicações, informática, eletrônica e mecânica.
Mas o interessado também pode aproveitar as oportunidades abertas em áreas absolutamente novas, para as quais sequer existe um equivalente na graduação comum. Foi o que fez Renato Idalgo, 27 anos, aluno do Curso de Tecnologia em Produção de Música Eletrônica da Universidade Anhembi Morumbi, de São Paulo, e DJ há sete anos. “Com um diploma, as chances de ser reconhecido e garantir o futuro são bem maiores”, diz. “Tem muita gente que não consegue entrar no mercado por falta de contatos, por exemplo, e acho que a graduação vai abrir portas”, afirma.
A visão do empregador também se ampliou e hoje ele oferece mais chances ao tecnólogo. Em alguns casos, até dá preferência a ele – caso da área da holinkria. “Há muita demanda por profissionais técnicos com formação específica desde a chegada das redes hoteleiras internacionais ao Brasil, que exigem mais especialização”, conta Eraldo Alves da Cruz, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH). “As formações mais valorizadas são as focadas no contato direto com o público, como recepção, gerência de vendas e de serviços e coordenação de eventos e de entretenimento”, completa.
A área de gastronomia, sobretudo em bares e restaurantes, também absorve rapidamente a oferta de profissionais. De acordo com Joaquim Saraiva de Almeida, diretor-social da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), é grande a procura por esses tecnólogos tanto em grandes centros do Sudeste e Sul quanto em regiões turísticas como as do Norte e Nordeste. “O mercado cresceu, e a exigência pela formação subiu junto”, afirma. “Como o curso superior de tecnologia é voltado para a prática, esses alunos têm uma grande vantagem em sua formação.”
Depoimento: “Arranjar emprego nunca foi problema”
A paulista Sheila Torres, de 37 anos, formada em Tecnologia Têxtil pela Faculdade de Tecnologia de Americana (Fatec-Americana), no interior de São Paulo. Para ela, encontrar um espao no mercado no difcil.“Estou há 15 anos na área e o fato de ser tecnóloga só me ajudou.”, revela. Atualmente, Sheila é coordenadora de qualidade da área de Suprimentos da Santista Têxtil. Para se atualizar e aperfeiçoar a formação, ela se especializou em Engenharia Industrial na Unicamp e planeja iniciar um curso de gestão empresarial. “A gente precisa ir para frente, estudar sempre para crescer cada vez mais”, opina. “O mundo profissional não aceita mais quem fica parado, esperando a vez chegar.”